O avesso da indiferença

Fui dormir e acordei com um assunto martelando a minha mente.

Quero descobrir caminhos. Sempre quis, aliás.

Desta vez, caminhos que me ajudem a entender qual o avesso da indiferença. Aquele lado que nos faz “pessoas de valor”, como dizia minha avó; os caminhos de identificação com o lado bom de cada um e não com o irracional da totalidade.

Um meio de resgate da nossa própria humanidade.

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Faz pouco tempo, ouvi de um psicólogo uruguaio, Alejandro de Barbieri, que tigres não se destigrizam, mas humanos, às vezes, se desumanizam.

É isso. Parece-me que estamos nos desumanizando por nos identificarmos com o não-humano, com o irracional, com o animalesco. OU apenas com o cultural.

Com isso, cabe ao indivíduo refletir sobre esta determinação social, sobre as injustiças, e, inclusive, sobre o aspecto contraditório do termo “progresso”.

As tais ‘marteladas’ na minha mente estão mais fortes, nos últimos dias, por conta de algumas notícias, contudo o certo é que, desde há muito, busco compreender os processos sociais, suas armadilhas e ajustes próprios, uma vez que faço parte deste todo que me envolve e no qual contribuo com minha parcela de influência.

Os jornais e revistas têm sido duros conosco. Diuturnamente despejam na nossa cara este lado sombrio de nossas almas, entretanto, já que sei do fato de que somos possuidores de outros aspectos, sadios, divinos, venho aqui evocá-los, tentando mostrar que em nossa trilha existem pedras gigantescas, muitas delas, formadas pelo nosso orgulho e egoísmo, e estas passam despercebidas, devido a nossa alienação existencial.

Uma destas tristes notícias veiculadas durante a semana pela mídia foi sobre o atentado ocorrido na França, contra os cartunistas da revista Charles Hebdo. Todo ou quase todo o país, principalmente aqueles que transitam pelas redes sociais, souberam deste trágico episódio e se sensibilizaram sobremaneira, identificando-se com aqueles que foram brutalmente mortos pelos terroristas islâmicos, em represália a um desenho de mal gosto, veiculado pela revista, ironizando o ícone espiritual do islã, Maomé. Não entrarei em análises sobre a tal charge e os crimes em si, uma vez que diversas pessoas já o fizeram, de forma magistral, então manterei o foco no sentimento exalado nas redes sociais, de total solidariedade aos mortos e seus familiares, com inúmeras postagens e imagens comoventes.

A outra notícia que também reverbera em mim, diz respeito ao Grupo extremista Boko Haram – um grupo radical islâmico que intensificou seus ataques nas últimas semanas na Nigéria e assumiu a autoria do massacre de mais de duas mil pessoas, ameaçando inclusive atravessar as fronteiras rumo a Camarões, aumentando o terror em toda a região.

Trata-se de uma seita que virou grupo armado, para a desgraça de muitos.

Moradores nigerianos, fugitivos, disseram que a maioria das vítimas é de crianças, mulheres e idosos que não conseguiram escapar dos insurgentes.

Fazendo rápida comparação, seja pelo tamanho e incidência das manchetes sobre cada um dos episódios ou a divulgação dos mesmos nas redes sociais, podemos inicialmente dizer que o fato na França, embora com um número muito menor de vítimas envolvidas, causou muito mais manifestações das pessoas, com frases e textos ressentidos, slogans apressados e discussões acaloradas, em comparação com a questão nigeriana. Uns defendendo apenas os cartunistas e a liberdade de expressão, outros desapontados com a falta de respeito para com o sagrado, nesta e em outras publicações.

Já a notícia sobre os milhares de mortos na África, ao menos em minha timeline, não recebeu nenhum compartilhamento, embora alguns jornais tenham relatado a respeito.

Como já disse acima, não quero aqui discutir a natureza dos crimes ocorridos, porque isso não retrata a gênese da questão. Gostaria de discutir, em um texto realmente despretensioso, o porquê de nos identificarmos mais com os franceses que com qualquer africano, seja ele na Nigéria, Camarões ou Madagascar ou, aproximando ainda mais nossa lente emocional, por que não nos identificamos também com os meninos e meninas que vivem nas ruas, ou nas periferias de nossas cidades e que são assassinados brutalmente, todos os dias!

Mais que isso: quero questionar aqui a razão pela qual desconsideramos uns, valorizando outros e qual seria um possível caminho de reconciliação com o todo humano.

Primeiramente analisemos quem são os franceses envolvidos no episódio:

Brancos, classe média e alta, ocidentais, vestem-se e se alimentam de forma parecida com a nossa, possuem famílias, rotinas muita vez comuns, envolvendo escolas para as crianças e trabalhos para os adultos, sonhos de consumo, etc.

E os Africanos, quem são? Na maior parte, negros, pobres, pouca escolaridade.  Alimentam-se com o pouco que conseguem. São possuidores de sonhos próprios, embora muitos talvez sejam até impossíveis de se realizar. Ah, sim! Também têm suas famílias, sentem medo, frio, fome ou alegrias, como outros terráqueos.

Então, se descascarmos toda esta cebola ardida, o que encontraremos de singularidades entre nós, brasileiros, e eles, franceses, está encerrado nas questões socioculturais. Agora, e o que temos em comum com todos eles, africanos, franceses ou qualquer outro ser humano da Terra?

Sim, a nossa humanidade.

Nossa capacidade de vibrar, de nos emocionar, de sentir empatia, compaixão, de investirmos energia em coisas futuras, previamente arquitetadas por nossa mente, que foi sendo desenvolvida ao longo dos milênios.

Quando vejo milhares de pessoas nas ruas da França, em homenagem aos mortos no atentado à revista, me pergunto: e quem irá às ruas pelos nigerianos? Quem se movimentaria em prol de povoados dizimados, crianças assassinadas a sangue frio, idosos abandonados à própria sorte? Quem? Não, ninguém irá. Isso porque até mesmo os Africanos já se acostumaram a isso – a estarem sozinhos em qualquer luta que fosse, sem manifestações que nunca serão ouvidas pelo mundo afora.

Mas, por que isso?

Porque, socialmente, sempre fomos diferentes deles.

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Então, ainda resta a pergunta: qual o avesso da indiferença nossa de cada dia? Como podemos desvelar o caminho que nos unirá ao todo, identificando-nos com cada irmão e não apenas com o social mais desumanizado?

A resposta me parece estar na nossa essência.

No caminho do autodescobrimento, precisamos, obrigatoriamente, passar pela esquina da reflexão.

Então, afinal, quem somos nós?

O que é o cerne de Ser Humano?

Qual é esta nossa essência?

Arrisco dizer que ela é muito anterior à cultura. Nossas disposições de vinculação, aquelas que nos impulsionam ao coletivo fazem parte dela. Portanto, está antes do próprio coletivo. Ou seja, para nos re-descobrirmos, teremos de nos despir da cultura na qual estamos inseridos.

Façamos um rápido exercício:

Hoje não somos mais ocidentais, não nos vestimos de determinada maneira, nem comemos determinados alimentos. Somos apenas humanos, todos nós. Temos corpos e mentes, necessidades, medos e anseios. Temos sonhos…

Nós, os franceses, os africanos, os russos… todos!

Esta é a única via de união possível. Nada de religiões, ciências, filosofias, políticas ou coisas afins. Somente a essência. Esta é uníssona, vibra em mesmo tom, caminha em conjunto, forma um mesmo leito de rio.

Ou seja, nos unimos por nossa própria humanidade.

Portanto, quando nos desumanizamos junto ao irracional do todo, nos desconectamos de nossa própria essência, somos injustos, cegos… e, por fim, adoecemos.

Adoecemos por nos comportarmos como loucos, por perdermos o contato com nossa própria realidade, com aquilo que verdadeiramente somos.

Para além daquilo que nos toca porque surge dos aspectos socioculturais, precisamos nos enternecer, no comover com o que é anterior, aquilo que brota na alma de todos. Precisamos nos ligar com a dor, as alegrias e os sonhos dos outros humanos apenas por eles serem humanos. Nada mais.

Só assim conseguiremos, por fim, salvar a nós e ao mundo que nos abriga.

Claudia Gelernter

5 thoughts on “O avesso da indiferença

  1. Concordo plenamente com você. As marteladas em sua cabeça, são as mesmas que martelam a minha.
    Muito bom seu texto e suas provocações.

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  2. Seu texto me arrepiou devemos ter esta consciência o sofrimento está em toda parte inclusive na esquina de nossa casa mais o ser humano escolheu até de quem deve ter pena compaixão. Se ninguém tem compaixão pela criança descalça faminta de carinho e comida q mora na esquina da minha casa então tô perdoada nem preciso olhar pra ela .este é o reflexo de como somos desumanizados ao longo do tempo e ao mesmo tempo tao influenciaveis. Sou mãe de três filhos tenho vinte cinco anos e tenho o dever de criar três seres humanos melhores pra ficar na sociedade.

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  3. Não sei se tenho espaço suficiente para anexar o Manifesto Futurista de Felippo Tommaso Marinetti em 1909 ele e seu grupo traçaram o perfil do homem do futuro. Se você ler com atenção encontrará a origem do pensamento de desumanização .
    O Manifesto Futurista foi escrito pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, e publicado no jornal francês Le Figaro em 20 de fevereiro de 1909.
    Concordo com o seu texto e com o processo de humanização que necessita ser retomado urgentemente.

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  4. Leciono, quase para aposentar em escolas estaduais, periferias, classe sociais menos abastadas, enfim, por longo tempo sinto este desamor entre inclusive e infelizmente às crianças da clientela de trabalho. Morte, desgraça, perda, são pra eles algo que se convive no cotidiano de cada uma delas, sem contar com a falta da presença da mãe e principalmente do pai.
    Como retomar o que foi perdido?
    Trabalho do estado? Nosso? Com tanta fraqueza, nós professores fundamentais do estado, estamos nos deparando cada dia mais com esta realidade…Apesar dos esforços…Abraços querida, e, parabéns pela brilhante colocação tão acertada de seu ponto de vista…

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