Ensino em casa e educação fora da casinha – qual a diferença?

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Entre as tragédias anunciadas no atual governo na área da educação, está a ideia de ensino em casa. Aqui vamos explicar alguns conceitos relacionados a essa questão.

Existem dois movimentos no mundo – e o maior contingente de pessoas envolvidas em ambos estão nos Estados Unidos, onde 2 milhões de crianças não vão à escola.

O primeiro, chamado de unschooling (desescolarização) e o segundo de homeschooling (ensino domiciliar). São duas coisas diferentes e mesmo opostas, em sua visão de educação.

A desescolarização é o que há de mais radical em termos de educação de vanguarda, geralmente ligada a vertentes anarquistas (embora tenha havido e há movimentos escolares anarquistas). Ivan Ilich (1926-2006), que escreveu o livro genial Desescolarizando a Sociedade, fazia uma justa crítica à massificação da educação, como formatação dos indivíduos dentro de moldes pré-estabalecidos, de acordo com os interesses dos poderes instituídos.

Todas as pessoas de vanguarda, que criticam a educação como ela é feita, concordam que a escola é chata, formatadora, opressora da criatividade e feita sob medida para alimentar o sistema de sujeitos passivos e submissos ao status quo. O excelente documentário de German Doin, La Educación Prohibida (2012) discute essas questões e mostra experiências alternativas de educação (em escolas).

Aqueles que no Brasil e no mundo aderem ao movimento de desescolarização – entre nós temos a conhecida Ana Thomaz e tivemos Sabrina Bittencourt, infelizmente falecida nesse mês, de maneira trágica, que havia criado com seu filho, então com 12 anos, a Escola com Asas – praticam uma educação livre, de acordo com o interesse das crianças, respeitando seu ritmo, estimulando sua criatividade, abrindo portas para o desenvolvimento de talentos.

Já o movimento do ensino domiciliar está ligado a correntes religiosas fundamentalistas e conservadoras que não têm nenhuma crítica ao ensino tradicional. Pretendem aliás reproduzi-lo em casa, com as mesmas matérias, a mesma forma de disciplinar a criança, submetendo-a a um currículo fechado e a regras rígidas. E por que então tirar a criança da escola? Justamente para subtraí-la a possíveis influências de outras ideias. Por exemplo, cristãos fundamentalistas que não aceitam a ideia de evolução, ensinarão a seus filhos apenas a doutrina criacionista. Nesse caso, ao invés da criança se libertar de uma escola chata, ela perde a oportunidade de conhecer ideias (principalmente científicas) que sejam contrárias ou apenas diferentes das preconizadas por sua seita ou religião.

A desescolarização pretende fazer seres humanos fora da caixinha. O ensino domiciliar pretende fazer fanáticos fundamentalistas.

Em ambos os casos, porém, há o perigo da criança não se socializar, criar ou pertencer a um mundo muito particular e ter dificuldade de inserção na sociedade.

Pessoalmente, se eu tivesse tido um filho, faria certamente a desescolarização, se não tivesse a oportunidade de criar uma escola de vanguarda. Mas a segunda opção me parece mais saudável, mais democrática, mais comunitária.

De qualquer forma, para pais fazerem a desescolarização precisam ter tempo (e portanto alguma condição financeira), precisam ter algum grau eles próprios de escolarização, para saberem como orientar a educação dos filhos. E, claro, para serem adeptos desse movimento, são necessariamente pessoas abertas, porque a ideia de tirar o filho da escola (e deveria ser apenas quando e se este quisesse essa opção!) tem a ver necessariamente com o respeito à liberdade dele.

Entretanto, o ensino em casa, para a população em geral, pode redundar em catástrofe. Porque por pior que a escola seja, ainda ela é o lugar onde a criança encontra outros modos de pensar, pode ter a sorte (e sempre tem) de conhecer e conviver com algum professor dedicado e amoroso (nem todos de fato são e conseguem ser assim até diante das condições deploráveis de trabalho), e ainda a escola pode ser um refúgio para muitas crianças que são espancadas, abusadas e, inclusive, mal alimentadas em casa.

A realidade é tão cruel que a pior escola às vezes é melhor que muitas famílias desestruturadas, opressoras e abusivas.

Veja-se essa notícia alarmante:

“Entre 2011 e 2017, o Brasil teve um aumento de 83% nas notificações gerais de violências sexuais contra crianças e adolescentes, segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde. No período foram notificados 184.524 casos de violência sexual, sendo 58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 (45,0%) contra adolescentes. 

A maioria das ocorrências, tanto com crianças quanto com adolescentes, ocorreu dentro de casa e os agressores são pessoas do convívio das vítimas, geralmente familiares. O estudo também mostra que a maioria das violências é praticada mais de uma vez.”

Então, a trágica verdade é que se os pais seriam os naturais protetores da criança contra abusos e violência, muitas vezes são os responsáveis por isso.

Portanto, é extremamente perigoso, pensarmos numa sociedade em que a escola seja enfraquecida. A escola deveria ser mudada, melhorada. A educação mais aberta, mais criativa, os professores mais valorizados e mais felizes, satisfeitos e engajados.

Mas estamos adentrando um momento sombrio da história do Brasil. Até agora, é bem verdade, não tínhamos conseguido uma escola pública de qualidade e que atendesse às necessidades das novas gerações das classes menos favorecisas. Mas ainda assim cumpria um papel mínimo de proteção à infância, de lugar para aprender e se socializar.

Com esse retrocesso político e social, a que assistimos estarrecidos e preocupados, a escola pública será ainda mais precarizada; a escola como instituição, desvalorizada; os professores, desrespeitados e massacrados e… a violência imperando em toda parte. O que nos resta é resistir, trabalhar, conscientizar, educar!

4 respostas para ‘Ensino em casa e educação fora da casinha – qual a diferença?

  1. Massa seu texto, Dora. Mas, me permita adicionar, acho que você conclui algumas coisas sem dados suficientes.

    Você diz que “Já o movimento do ensino domiciliar está ligado a correntes religiosas fundamentalistas e conservadoras que não têm nenhuma crítica ao ensino tradicional.”. Por que generaliza? Provavelmente porque não conhece nenhuma experiência de homeschooling que não tenha esse perfil. Se for por isso, lhe faltam dados.

    Particularmente, conheço familias que fazem homeschooling porque as leis de seus países não permitem o unschooling, mas permitem o homeschooling. A intenção deles é oferecer uma educação mais “libertadora e fora da caixinha”, como voce comenta no texto. Os seus países (explicitamente, Suíça, Espanha e Estados Unidos) permitem a educação domiciliar segundo a legislação de suas unidades federativas (cada cantão, comunidade autônoma e estado pode ter suas regras diferentes). Para a educação domiciliar ser aceita, as famílias devem cumprir alguns requisitos. Em alguns casos, os pais devem necessariamente ter formação em educação, em outros não. Em alguns casos um fiscal do Estado comparece às residências uma vez por ano para se reunir com as famílias e verificar as atividades desenvolvidas durante o ano, e verificam se estas atividades cumprem determinados requisitos mínimos (se foram abordados temas mínimos de matemática, ciências, e se as atividades são redigidas nos idiomas oficiais dos países). O que o homeschooling oferece a estas famílias é estabelecer uma rotina diferente da da escola, os assuntos de ciências podem ser abordados, por exemplo, em visitas a museus, parques, zoos, passeios no parque. Os temas de idiomas e matemática podem ser abordados em qualquer outra atividade, de maneira interdisciplinar. Não há a obrigação de realizar testes, mas atividades. Não necessariamente há um horário a cumprir, às vezes é a própria motivação da criança que faz com que haja uma atividade de um determinado tema em um dia. É um filme que ela assiste que a motiva a ler sobre determinado autor, ou a pesquisar sobre a formação de vulcões, sobre a evolução das espécies, etc.

    Não estou dizendo que acho que esta é a real intenção dos fundamentalistas que estão no atual governo brasileiro, sob o comando de Bolsonaro. Eu concordo que a real intenção deles é dar mais poder a famílias fundamentalistas e à religião na educação das crianças. Mas acho que não se pode usar este exemplo (e o exemplo de outras famílias fundamentalistas em outras partes do mundo, como os EUA) para pintar o homeschooling como uma prática de fundamentalistas. Não é! É uma educação libertadora, que está provavelmente no meio do caminho entre a escola convencional e o unschooling.

    Abraços,

    Charles

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    1. Obrigada por seus comentários, Charles! Obviamente que se esses pais estão fazendo um bom trabalho em casa, sob supervisão, tendo as crianças mais oportunidades de vivenciar do que apenas estudar de maneira tradicional, eles estão mais próximos do unschooling! Você está certo, a minha crítica vai para os fundamentalistas – de que infelizmente o Brasil está cheio neste triste momento histórico.

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  2. É possível perceber que o impacto de uma evasão escolar no sentido da educação domiciliar recairia, massivamente, na educação privada. Apenas famílias dentro de um perfil socioeconômico de médio para alto teriam como tentar essa façanha de abrir mão da escola. Não sei se daria algum resultado positivo para essas crianças. Contudo, o argumento de que a educação pública seria prejudicada é infundado. O acesso à educação particular poderia até melhorar diante dessa evasão pois, pela lei de oferta e procura, esse setor seria obrigado a rever sua política de preços proibitivos à imensa maioria dos brasileiros.

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  3. Penso que a discussão vai além e nos indaga sobre o que seria mais essencial: a liberdade ou igualdade? Embora, as duas palavras quase sempre são colocadas como “companheiras” e até erroneamente sinônimas, se invertermos esse discurso a lá revolução francesa, é possível que os dois termos podem apresentar antagonismos e consequentemente, conflito de ideias. Você defende a escola, em primázia, pelo suposto fator “comunitário” e de socialização. Mas, ao mesmo tempo, se esquiva de falar acerca do inevitável padrão que se institui dentro da escola, fazendo com que alunos que não conseguem se encaixar na coletividade ali construída, se sintam menosprezados e excluídos. Portanto, é preciso lembrar de que a escola não é o único lugar que pode ocorrer a socialização, tampouco consegue articular essa socialização de forma IGUALITÁRIA, até porque somos diferentes. Inclusive, essa socialização forçada é motivo de trauma para muitos estudantes que até hoje carregam as dificuldades em relacionar-se de forma interpessoal com os outros em sociedade. Ainda, devo fazer uma correção. Quanto a educação domiciliar, é admitivel que os pais exerçam sua influência religiosa sobre os filhos, isso é algo natural e defendido não só pela constituição, mas também pelos Direitos Humanos. Sua indagação é que os filhos possam não conhecer “o outro lado das coisas”. Bom, você diz isso baseado em quê?Isso é um achismo. Convido você a pesquisar sobre famílias que educam seus filhos em casa e como educam, não só brasileiras, mas as americanas também. Muitas delas se baseiam no Trivium e Quadrivium para desenvolver as atividades e os alunos tem contato não só com o pensamento cristão e cientifico, mas com o secularismo trazido pelo paganismo. Ainda, de acordo com o atual PL sobre a Educação domiciliar, o MEC obriga que as famílias educadoras sigam o mesmo currículo que as escolas seguem. ( Por mais que eu não seja defensora dessa última ideia).

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